Ensinar as crianças a comerem bem: Por que é tão difícil?

2018-08-30T19:48:05+00:0030 de agosto - 2018|Desenvolvimento Infantil|

Quem convive com os pequenos tem percebido que é cada dia mais difícil fazer as crianças comerem bem, e manterem uma alimentação saudável.

Na seção de doces no supermercado fica difícil  controlar as “formiguinhas”. E o desafio de montar um carrinho com compras saudáveis fica maior ainda, quando escutamos o pequeno falar “MÃEEE, COMPRA A BOLACHA QUE EU VI NA TV?”

Hoje em dia, ao nos alimentarmos, não nos preocupamos apenas com a qualidade nutricional dos alimentos, mas também com o gosto, a aparência, a cor e a praticidade. Tais critérios de escolha, acabam por aumentar o consumo de alimentos industrializados, principalmente por crianças e adolescentes.

Apesar da inexistência de recomendações específicas quanto à quantidade e frequência do consumo de alimentos industrializados na dieta infantil, sabe-se que devem ser desencorajados nos primeiros anos de vida, devido às evidências de que sua ingestão continuada e excessiva promove prejuízos no desenvolvimento, além de doenças crônicas como diabetes e hipertensão.

Alguns estudos sugerem que o consumo excessivo de industrializados é determinado por fatores como renda familiar, idade e escolaridade materna, porém a mídia tem exercido papel fundamental na formação de novos hábitos alimentares, em especial de crianças. A televisão, dentre todas as mídias veiculadoras de publicidade, é a mais significativa pelo tempo de exposição das crianças. Através desse meio de comunicação elas podem adquirir uma concepção inadequada do que é um alimento saudável.

A divulgação de alimentos está mais focada em aspectos publicitários, ou seja, comerciais, do que aspectos informativos sobre as características nutricionais desses alimentos, ocasionando ao consumidor uma dificuldade imensa em compreender a real composição destes produtos. Devido a esses agravos, diversos países tem adotado medidas para limitar essa publicidade e propaganda voltada ao público infantil, como exemplo, aqui no Brasil, em 2016, Superior Tribunal de Justiça (STJ) proibiu a campanha publicitária dirigida ao público infantil, assim protegendo as crianças contra todo tipo de publicidade abusiva, que estimula o consumismo e hábitos alimentares não saudáveis.

Em um estudo de Naves e Weber (2004), foi aplicado um questionário à pais de crianças na faixa de 2 a 6 anos, sobre a alimentação dos filhos e como se comportam no supermercado, e, segundo os pais, as crianças procuram primeiramente iogurtes, seguido dos salgadinhos industrializados, bolachas e chocolates. Em relação aos produtos menos procurados por elas, destacam-se os legumes, pães e hambúrgueres. Concluiu-se, então, que a propaganda e a embalagem influenciam a escolha de alimentos pelas crianças.

Neste estudo percebeu-se também que a maioria dos pais não leva seus filhos às compras, pois admitem o poder de influência das crianças na aquisição de alimentos. Para conseguir inserir uma alimentação mais saudável, é importante estimular as crianças a participar do preparo das receitas preferidas, desde a compra dos alimentos, até a montagem do prato. No nosso texto “Como fazer meu filho ter uma alimentação mais saudável?”  você pode encontrar essa e outras dicas para te ajudar na hora de convencer os pequenos a comerem de tudo.

Que tal inserir seu filho nas atividades de compras, como supermercado e feira? Conversando, argumentando e educando-o sobre compras conscientes e alimentação saudável.

 

 

 

REFERÊNCIAS

GONÇALVES, Fernanda Denardim et. Al. A promoção da saúde na educação infantil. 

http://www.scielo.br/pdf/icse/v12n24/13.pdf

HENRIQUES, Patrícia, DIAS, Patrícia Camacho, BURLANDY, Luciene. A regulamentação da propaganda de alimentos no Brasil: convergências e conflitos de interesses.

http://www.scielo.br/pdf/csp/v30n6/0102-311X-csp-30-6-1219.pdf

HENRIQUES, Patrícia. et. Al. Regulamentação da propaganda de alimentos infantis como estratégia para a promoção da saúde. 

http://www.scielo.br/pdf/csc/v17n2/a21v17n2.pdf

NAVES, Lílian Helena Quirino, WEBER, Márcia Lopes. O consumo alimentar do pré-escolar e influência da mídia na alimentação infantil. 

http://www.unifenas.br/pesquisa/semic/iiisemic/anais/trab/Nutricao/resumos/nut4.PDF

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS), 2016. Putting taxes into the diet equation. 

http://www.who.int/bulletin/volumes/94/4/16-020416.pdf

RAMOS, M.; STEIN, L. M. Desenvolvimento do comportamento alimentar infantil.

http://www.jped.com.br/conteudo/00-76-S229/port.pdf

TOLONI, Maysa Helena de Aguiar, et. Al, Alimentação no primeiro de vida: o advento dos alimentos industrializados. 

http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&id_materia=5745

TOLONI, Maysa Helena de Aguiar, SILVA, Giovana Longo, GOULART, Rita Maria Monteiro, TADDEI, José Augusto de Aguiar Carrazedo. Introdução de alimentos industrializados e de alimentos de uso tradicional na dieta de crianças de creches públicas no município de São Paulo. 

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-52732011000100006

Sobre o Autor:

Anna Victoria Fragoso
Mestre em Gastroenterologia pela Faculdade de Medicina da USP (2017) Especialista em Nutrição Hospitalar pelo Hospital das Clínicas da USP (2012) Formada pelo Centro Universitário São Camilo (2010) Atendimento em consultório há 8 anos.

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