Em entrevista a Fofuuu, a Fonoaudióloga Marina Cavalcanti, especialista em surdez, fala sobre como o Implante Coclear pode ajudar as crianças surdas a se desenvolverem de maneira mais saudável em casa e na escola.

Com o avanço da tecnologia e recursos mais eficazes, é cada vez mais comuns que crianças que nascem com graus severo de surdez passem por cirurgias para receberem o implante coclear logo após seu primeiro aniversário.

Para os pais, o segundo no qual os filhos começam a ouvir é quase indescritível. E para as crianças, especialmente para as que receberam os implantes na época que começam a andar, a situação costuma variar desde risadas à choros. Entretanto, o implante oferece a chance de elas crescerem com a fala normal, até mesmo com potencial para tocar piano.

A colocação de um implante coclear em nas crianças na fase que precede o início da linguagem, implica em uma estratégia totalmente diferente daquela usada num adulto que já ouviu. No adulto, o cérebro já foi “moldado” pela percepção da linguagem e o sucesso do implante depende da comparação que o cérebro estabelece entre a nova estimulação e os sons memorizados antes de surgir a surdez.

Já na criança que nasceu com surdez em grau severo, o cérebro nunca recebeu informação auditiva até ao momento da implantação, criando uma estrutura a partir de outras percepções sensoriais (visão, percepção de espaço, etc).

Nosso aplicativo Fofuuu Fono pode auxiliar muito as crianças com implante coclear, um exemplo disso é o Davi, que nasceu surdo e descobriu o app nas sessões de fonoaudiologia e agora a evolução dele não para. Confira o vídeo abaixo:

Mas como dúvidas não faltam sobre implante coclear nas crianças, chamamos a Fonoaudióloga Marina Cavalcanti, que é especialista no assunto, para responder algumas perguntas e ajudar os pais, mães, professores e até outras fonos a entender e lidar melhor com esses pequenos.

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Conteúdos Relevantes

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O que é o implante coclear e como ele funciona? Qual a diferença entre ele e os aparelhos auditivos comuns?

Fga. Marina Cavalcanti: O Implante Coclear (IC) é um importante recurso clínico de alta complexidade tecnológica que possibilita que indivíduos com perda auditiva de grau severo a profundo, que não se beneficiam com o uso de aparelhos auditivos, possam ter acesso ao mundo dos sons.  Este dispositivo substitui a função do ouvido interno através de duas partes: uma unidade interna e outra externa.

Unidade Interna

A unidade interna composta por um feixe de eletrodos que são inseridos cirurgicamente dentro do ouvido do paciente, mais especificamente na cóclea. Além do feixe de eletrodos, o dispositivo interno possui um receptor, uma antena e o um imã que servem para fixar a parte interna com a parte externa e captar os sinais elétricos oriundos da parte externa. O receptor contém um “chip” que converte o sinal de radiofrequência recebido pela parte externa, converte-os em sinais eletrônicos e libera os impulsos elétricos para os eletrodos estimulando diretamente o nervo auditivo.

Unidade externa

A unidade externa é composta por um processador de fala, um microfone e uma antena transmissora que possui um imã que serve para fixá-lo magneticamente a antena da unidade interna. O microfone capta os sons do ambiente e transmite ao processador que fala que é o responsável por analisar, tratar e codificar os sinais sonoros recebidos. Os sinais codificados passam para a antena transmissora e é transmitido a parte interna por meio do ímã.

 

No IC, os estímulos elétricos produzidos percorrem a via auditiva até o córtex cerebral, o uso contínuo deste dispositivo promove uma maior estimulação das conexões sinápticas da via auditiva, o que gera uma melhor conexão entre elas e uma melhora na mielinização neuronal. O reflexo desta estimulação é a interpretação dos sinais sonoros e a possibilidade de (re)estabelecer a linguagem oral.

Os aparelhos auditivos comuns, conhecidos como Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI), também são dispositivos eletrônicos altamente sofisticados que estão a serviço da comunicação oral humana. Mas, ao contrário do IC, eles não são inseridos cirurgicamente e podem ser colocados dentro e/ou apoiado na orelha. Todos os AASIs possuem 5 componentes básicos: microfone, amplificador, receptor, bateria e chip de programação que são ajustados e personalizados de acordo com cada perda auditiva e estilo de vida.

Os aparelhos auditivos podem ser usados todos os tipos de perda auditiva de grau leve ao profundo, em qualquer idade e trazem muita qualidade de vida aos seus usuários.

 

O implante coclear é indicado para crianças com qualquer grau de surdez? A partir de quantos anos?

Fga. MC: O implante coclear é indicado para pessoas com perda auditiva neurossensorial de grau severo a profundo bilateral. A pessoa candidata ao uso do IC pode ter nascido com a surdez ou tê-la adquirido em alguma etapa da vida, aos que perderam a audição antes do desenvolvimento da linguagem oral chamamos de pré-lingual, e os que perderam após terem desenvolvido a linguagem oral, chamamos de pré-lingual. Também é necessário que o candidato ao IC não tenha obtido benefício com o uso de Aparelho de Amplificação Sonora Individual (AASI).

No pacientes pós-linguais não há estabelecido um limite de tempo para a realização do IC, entretanto a ciência nos provou que quanto maior o tempo de surdez não tratada, piores serão os benefícios com o IC. Cada caso precisa ser analisado.

Já os que nasceram com surdez, pré-linguais, o tempo é precioso! O ideal é que a cirurgia de IC seja realizada até os 2 anos de idade. Aqui a ciência nos mostrou que quanto mais precoce é o uso do IC, maiores serão os benefícios alcançados. Após os 2 anos de idade a criança também pode ser implantada, mas após o 5º ano de vida os resultados terão forte interferência de outros fatores que precisam ser analisados com a equipe multiprofissional.

Além dos fatores citados outros critérios precisam ser considerados como, por exemplo, a motivação, expectativa e envolvimento familiar, condições médicas e psicológicas adequadas, presença de outras comorbidades, entre outros.

 

Como é feito o acompanhamento médico? Quanto tempo o tratamento/terapia leva, em média?

Fga. MC: O atendimento é realizado através de uma equipe multidisciplinar especializada em IC e precisa ser extremamente rigoroso dada a sua complexidade. A equipe é essencialmente composta por um médico otorrinolaringologista, um fonoaudiólogo e um psicólogo.

Inicialmente o paciente passa por uma avaliação médica para diagnóstico da perda auditiva e escolha do tratamento adequado, ele também precisa ser avaliado quanto as questões de saúde em geral.

Ao ser candidato ao uso de IC o paciente precisa passa por uma série de avaliações. Com o fonoaudiólogo são realizados testes auditivos e de linguem e desempenho com os aparelhos auditivos. Com o psicólogo são avaliados os aspectos psicológicos tanto de quem usará o IC como de seus familiares, como por exemplo a motivação e a expectativa. Com o médico são avaliadas questões pré operatórias.

Após a cirurgia o paciente precisa continuar o tratamento e ser acompanhado regularmente por toda a equipe e realizar terapia fonoaudiológica regular para programação do processador de fala e para o desenvolvimento de habilidades auditivas e de linguagem. A quantidade de sessões por semana e a duração da terapia fonoaudiológica é variável e precisa ser analisada individualmente. Já a programação do processador de fala precisa acompanhada e aprimorada continuamente.

 

Existe algum programa público que subsidie o implante para crianças de baixa renda?

Fga MC: Sim! A disponibilidade desta tecnologia no Brasil é uma realidade tanto no sistema público de saúde como no privado. Desde 1999 o Brasil possui políticas públicas que garantem o acesso ao IC, a portaria atual é a Nº 2.776 de Diretrizes Gerais para a Atenção Especializada às Pessoas com Deficiência Auditiva no Sistema Único de Saúde (SUS). É necessário ir ao posto de saúde mais próximo a sua residência e solicitar consulta com otorrinolaringologista para avaliação e encaminhamento.

PORTARIA GM/MS Nº 2.776, DE 18 DE DEZEMBRO DE 2014: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/diretrizes_gerais_atencao_especializada_pessoas_deficiencia_auditiva_SUS.pdf

 

Quais as diferenças no desenvolvimento e aprendizado de uma criança com o implante e sem (que se comunica por libras)?

Fga MC: O desenvolvimento de linguagem oral e de aprendizado de uma criança com IC varia de acordo com fatores como tempo de privação sensorial, idade da implantação, uso efetivo do IC, frequência regular em terapia fonoaudiológica e outros. De modo geral, as crianças usuárias de IC podem chegar ao desenvolvimento de seus pares ouvintes e frequentar escola regular.

Ao fazer uso do IC optamos pelo desenvolvimento de fala e linguagem baseado na modalidade oral-auditiva. Neste modelo o desenvolvimento da fala e linguagem é baseado nos sons, para cada som é atribuído um significado e uma “imagem mental”. Por exemplo, se eu falar cadeira, você evocará na mente a imagem sonora da palavra e pensará em uma cadeira que provavelmente terá quatro pernas, encosto e apoio de braço; mas outra pessoa poderá ter uma imagem de cadeira completamente diferente da sua, com duas pernas e sem apoio de braço, as imagens variam de acordo com a experiência de vida de cada um.  O ensino formal com o sistema alfabético é apoiado na modalidade oral-auditiva, cada letra representa um som específico e cada sequência de letras/sons específicos formam uma palavra.

Já na língua de sinais a modalidade é outa: gestual-visual e esta é a principal diferença. Por tanto, na linguagem de sinais o desenvolvimento da linguagem é baseado em movimentos gestuais e expressões faciais, cada movimento (sinal) possui um significado, inclusive as letras do alfabeto e neste caso o aprendizado formal possui outra modalidade que deve ser considerada durante o processo de aprendizado.

 

Como as escolas podem trabalhar com crianças que possuem implante coclear e ainda estão em fase de terapia?

Fga MC: As escolas devem acolher e incluir as crianças usuárias de IC de acordo com a especificidade de cada uma. É essencial manter um relacionamento e trabalhar em parceria com o fonoaudiólogo terapêutico, seguindo as orientações necessárias e trabalhando a diversidade em sala de aula. A família é outro pilar importantíssimo e é a principal chave do sucesso!

As crianças usuárias de IC possuem a tecnologia a seu favor e devem fazer uso delas para facilitar o processo de aprendizagem formal. Existem dispositivos de frequência modulada e microfone remoto que transmitem a voz do professor diretamente aos ouvis da criança, diminuindo o ruído e facilitando a compreensão, o professor precisa estar com o microfone próximo ao corpo e tornar o uso do dispositivo o mais natural possível. O local em que a criança ficará em sala de aula também pode facilitar o processo de aprendizagem, a escolha do local pode ser realizada com a ajuda do fonoaudiólogo terapeuta que levará em consideração as características acústicas do ambiente e as necessidades da criança.

Dispomos ainda de inúmeras estratégias facilitadoras de aprendizagem que, mais uma vez, precisam ser analisadas individualmente. O importante é formar uma parceria de qualidade entre escola, fonoaudiólogo e família.

 

 

Fga. Marina Cavalcanti

CRFa: 2-21178

Contato: m.cavalcanti@fm.usp.br ; (11) 96888-2727.

Referência: BOECHAT, E. M et al. (Org.). Tratado de Audiologia. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2015.

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